quarta-feira, 7 de março de 2018

Resistir, persistir, refletir



Texto da Profª Drª  Sônia Maria de Meneses Silva na abertura do III Seminário Nacional de História e Contemporaneidades

O III Contemporaneidades deste ano convida à reflexão, mas, sobretudo à resistência. Em 2013, ano do primeiro encontro, cujo do tema foi “As Dimensões Políticas da Escrita da História e o futuro do passado” nosso desafio foi pensar os meandros políticos presentes na produção historiográfica, mas também, interrogarmos sobre o futuro do nosso passado e do nosso ofício. Uma provocação para que tentássemos imaginar nosso fazer a partir do presente em ebulição. 
Naquele ano assistimos às grandes manifestações populares que tomaram às ruas no mês de junho. Episódio que mesmo agora buscamos compreender a complexidade, mas que, já naquelas semanas deixou claro que algo estava no ar. As ruas foram tomadas por muitas demandas, forças opostas, pautas variadas. Em meio aos gritos por direitos, mudanças políticas, identidades, busca por liberdade, forças conservadoras também encontram o espaço ideal para se reunirem, ganharam entusiasmo e aglutinaram os anseios e as insatisfações represadas de uma classe média reativa às transformações sociais em curso no país.
O reacionarismo emergiu como bandeira e instigou uma crescente onda de intolerância na cena pública, aspectos que nos inspiraram na segunda edição de nosso evento com o tema: “Pensar o passado em tempos de extremismos e exclusões” em 2015.
Naquele ano rapidamente caminhamos para um processo de mudanças drásticas no país. Os grupos conservadores formados nas ruas em 2013, agora haviam se tornado um movimento organizado em frentes diversas, especialmente, redes sociais e financiados por grandes empresas e políticos, difundido o caos na informação através de Fake News.  Tal movimento foi sustentado também por um congresso nacional dominando por latifundiários, fundamentalistas religiosos  e forças policiais. De outro lado, o poder judiciário mostrou-se alinhado com às demandas políticas advindas desses grupos e se proliferaram episódios esdrúxulos de interpretação da lei, arbitrariedades jurídicas e ações policiais espalhafatosas amparadas pela cobertura dos grandes meios de comunicação. 
Em meio a tudo isso, nossas esquerdas se demonstraram incapazes de estruturar uma reação à altura dos processos em curso, perdida em meio suas fissuras internas, como também, pela incapacidade de avaliar seus próprios erros frente a esse cotidiano.
Assim assistimos, em menos de um ano, ao desmantelamento de um governo eleito num golpe Jurídico-parlamentar e midiático. Em 2016 a votação do falacioso processo de impeachment que derrubou Dilma Rousseff pode ser descrito como um dos episódios mais vergonhosos e indignos de nossa história. Fomos confrontados um Congresso zombador que teve como máxima argumentativa o cinismo, o escárnio e um total desrespeito pelas instituições democráticas do país. Em inacreditáveis 18 meses retornam ao nosso cotidiano expressões e situações que imaginávamos no passado: intervenção militar, caça aos comunistas, censura, fome, desemprego, ataque às universidades, perseguição à professores, golpe.
Nós que fazermos parte do III Contemporaneidades reafirmamos o caráter golpista desse movimento e do processo de usurpação de diretos ora em curso no país, deste modo esperamos que essa semana seja um rico momento de reflexões, do livre pensamento, do respeito às diversidades étnicas e de gênero e da reafirmação da universidade como espaço defesa do conhecimento, da cidadania e dos direitos humanos.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

BEM VINDO À CASA DE BONECAS

Esse filme norte-americano intitulado “Bem-Vindos à Casa de Bonecas” (1995) está classificado como comédia, porém não tem graça. E onde está a graça do filme? A indústria cinematográfica estadunidense o classificou assim, pois não somente para eles mais para boa parte da população mundial ser diferente é motivo de piadas e repressões.
Pois bem, esse filme conta a história de uma jovem que sofre Bullying na escola por parte de seus colegas. A personagem Dawn Weiner, passa por um drama escolar, a qual é insultada de feia e com um apelido grotesco de cara-de-cachorro ela tenta se inserir no convívio social. Por ser um pouco diferente dos padrões de beleza da sociedade que faz parte, ela é excluída e reprimida por outros colegas.
Pegando um pouco da teoria dos campos de Pierre Bourdieu, é possível detectar que Dawn, não está sendo aceita em nenhum dos campos sociais a qual está inserida, nem na escola e muito menos na família que seria em tese o mais fácil de alocar. A família da jovem Dawn é uma típica família representada nas produções dos ianques, ou seja, pessoas consideradas normais, um estilo ideal a ser seguido no padrão “American way of life”.
O título do filme já sintetiza muita coisa, pois “a casa das bonecas”, nada mais é que uma família feliz de fachada, artificial e fria em suas atitudes. O filme às vezes sufoca quem o assiste pela crueldade dos pais dessa garota que a rejeitam sumariamente, não importa o que ela faça sempre vai ser tachado como algo ruim ou indigno de congratulações.
Dawn Weiner tenta se enturmar com os colegas que resistem em deixar a miserável fazer parte de seus círculos de amizades. Daí ela tenta ser “descolada”, até almeja namorar um colega de seu irmão bem mais velho que ela, tornando-se até a única fã da banda de garagem deles. Começa até a mudar um pouco seu figurino.
Outro detalhe interessante do filme é que quando Dawn sofre algum tipo de repressão ela transmite o que sentiu na pele para outros indivíduos, nos quais ela pode descontar sua raiva, como por exemplo, chamar a irmã de lésbica e seu melhor amigo de “bicha”. O problema disso é que vai se tornando uma bola de neve de insultos que cedo ou tarde vira algo normal, a tipo da expressão “é coisa de jovem”, ou “coisas de adolescentes”, “é normal para a idade”, etc.
O pior disso tudo é que esses jovens que sofrem Bullying, não se esquecem dessas perseguições e repressões dos colegas covardes, daí geram com frequência jovens perturbados que veem como única forma de dar o troco na sociedade pegando em armas e ferindo ou matando os colegas de classe, mesmo que às vezes nem fossem os seus opressores. A exemplo disso houve o massacre de Columbine realizado pelos jovens Eric Harris e Dylan Klebold, que com armas de fogo e um arsenal de bombas caseiras invadiram o colégio, mataram 12 alunos, um professor e cometeram suicídio. Esse fato ocorreu em 20 de abril de 1999, de lá pra cá outros casos aconteceram na terra do Tio Sam e em sua maioria foram associados ao Bullying.
Em uma das cenas do filme, Dawn pega um martelo e por pouco não mata a irmã mais nova que era muito paparicada pelos pais. Certo dia Dawn não repassa a informação da mãe para sua irmã que não poderia busca-la na escola, o que resultou no sequestro da irmã caçula. Daí a casa desmorona, com o sequestro da filha o pai fica doente e a mãe desolada.
Dawn toma a iniciativa de ir atrás de sua irmã em Nova York. Pregando cartazes da desaparecida e perambulando pelas ruas com a foto da irmã, sem sucesso liga para sua casa e descobre que a irmã tinha sido localizada, e sua viagem à metrópole não fora nem percebida pelos pais que nem ao menos a agradeceram ou a repreenderam por ter ido sozinha.

Por fim, pelas inúmeras tentativas de ser aceita na sociedade, Dawn Weiner, cede aos opressores e mantem sua vida de criança ao visitar a Walt Disney World, e deixa sua adolescência pra depois, ou para quando puder exercê-la.