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O Golpe de 1964 visto pela TV dos EUA




Transmitido em 4 de maio de 1964, menos de um mês após a deposição do presidente João Goulart, o programa At Issue: The View from Brazil, da extinta National Educational Television (NET), constitui uma fonte audiovisual jornalística de grande relevância histórica. Produzido nos Estados Unidos e voltado a um público interessado em política internacional, o conteúdo reflete as leituras iniciais do golpe brasileiro em pleno contexto da Guerra Fria.

A atração reuniu dois correspondentes da imprensa norte-americana e contou com entrevistas de Roberto Campos, então ministro do Planejamento do novo governo, e do escritor Érico Veríssimo. A escolha dos convidados evidencia o objetivo do programa: apresentar ao público estadunidense interpretações distintas sobre a ruptura institucional no Brasil, mediadas por posições sociais e discursivas específicas.

A questão central que emerge da fonte é como o golpe de 1964 foi interpretado, justificado e problematizado imediatamente após sua ocorrência, em um espaço comunicacional internacional fortemente marcado pela polarização ideológica. O programa permite observar, simultaneamente, a construção de uma narrativa oficial de legitimação do novo regime e a formulação de uma leitura crítica, ainda que ambivalente, por parte da intelectualidade liberal.

Produzido em um momento de intensa tensão global, o programa insere o Brasil no tabuleiro estratégico da disputa entre Estados Unidos e União Soviética. Poucos anos após a Revolução Cubana e em meio à implementação da Aliança para o Progresso, a situação brasileira ganhou projeção internacional imediata. O caráter “a quente” das análises, formuladas quando os rumos do novo regime ainda eram incertos, confere alto valor histórico ao documento, embora também imponha limites evidentes às interpretações apresentadas.

Do ponto de vista crítico, a fonte revela múltiplas camadas de intencionalidade. Como produto televisivo, seleciona vozes, organiza argumentos e estrutura o debate de forma acessível ao público norte-americano. A presença de Roberto Campos, com sólida trajetória diplomática nos Estados Unidos, cumpre papel central na mediação internacional do discurso do novo governo.

Em sua argumentação, Campos adota uma estratégia clara de legitimação. Ele rejeita a caracterização do regime como militar, definindo o golpe como uma “revolução de classe média”, na qual as Forças Armadas teriam atuado apenas como instrumento. Em seguida, justifica a ruptura política com base no argumento do “perigo comunista”, apresentado como uma ameaça minoritária, porém capaz de comprometer a economia e a democracia. Por fim, projeta o novo governo como portador de uma ética tecnocrática, em contraste com o que descreve como improvisação e demagogia do período anterior.

Ao tratar das denúncias de prisões políticas e da suspensão de direitos civis, Campos relativiza os fatos ao enquadrá-los como “excessos” temporários, considerados menores diante do risco que, segundo ele, teria sido evitado. A comparação com conflitos raciais nos Estados Unidos funciona como recurso retórico para deslocar críticas externas e questionar a autoridade moral dos interlocutores, sem negar diretamente as acusações.

A participação de Érico Veríssimo introduz um tom distinto. Longe de uma defesa oficial ou de uma oposição direta, o escritor apresenta uma reflexão marcada pela ambivalência. Ele manifesta alívio com a queda de Goulart, descrita como o fim de um “pesadelo”, mas se recusa a tratar o novo regime como plenamente normalizado, afirmando que o país ainda vive um “sonho ruim”. Essa posição revela o dilema de setores da intelectualidade liberal, críticos ao governo deposto, mas comprometidos com valores democráticos.

Veríssimo também amplia o debate ao relacionar o processo político à formação de uma consciência social, destacando o papel da literatura brasileira desde a década de 1930. Ao deslocar a análise do plano institucional para o campo cultural, sugere que as tensões de 1964 estão enraizadas em desigualdades sociais historicamente construídas. Sua crítica à política externa dos Estados Unidos, ao apontar a influência de grandes interesses econômicos e a dificuldade de compreensão das realidades latino-americanas, expõe um mal-estar persistente nas relações entre Brasil e EUA, mesmo fora dos círculos da esquerda.

A justaposição das falas de Campos e Veríssimo evidencia a coexistência de leituras concorrentes sobre o mesmo evento histórico. De um lado, o discurso do poder, ancorado na linguagem da Guerra Fria, do desenvolvimento econômico e da tecnocracia. De outro, a voz do intelectual público, que articula sensibilidade democrática, experiência cultural e crítica internacional. O silêncio sobre os atores populares, os presos políticos e os setores diretamente atingidos pela repressão revela limites estruturais da fonte, associados tanto ao formato televisivo quanto ao perfil dos entrevistados.

Como fonte primária, At Issue: The View from Brazil permite acessar o momento inicial de formulação das narrativas sobre o golpe de 1964, antes da consolidação institucional do regime. Seu valor reside menos na confirmação de fatos e mais na exposição das interpretações em disputa, das estratégias de legitimação e das tensões entre democracia, ordem e desenvolvimento no contexto da Guerra Fria.

O programa demonstra que o golpe foi, desde o início, um acontecimento narrado e justificado também fora do Brasil, reforçando a importância de fontes internacionais para a compreensão crítica da história política brasileira contemporânea.